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Antes de entrarmos no tema, dois esclarecimentos são necessários: (1) Se você considera este assunto resolvido, meu texto provavelmente não mudará sua opinião. (2) Se você acredita que ainda há margem para discussão, minha intenção não é encerrar o debate, mas sim trazer algumas reflexões sobre os efeitos da maturação na qualidade da silagem.

Existe um teor ideal de matéria seca (MS) para a colheita da silagem de milho? A resposta, até hoje, sempre foi apresentada como uma faixa de variação de acordo com o autor: 28-34%, 30-35%, 30-40%, 35-38%. Além disso, tenho acompanhado produtores que colhem próximo ou até acima de 40% de MS. Isso significa que estão errados? Ou será que o objetivo deles é diferente? O que muda em uma silagem com 38-40% de MS?

O milho é uma cultura anual, logo apresenta as fases vegetativa, reprodutiva e de maturação até a colheita para grãos (teor de MS do grão de cerca de 80-85%). Entre a fase reprodutiva e a maturação completa, existe uma “janela de corte” para a produção de silagem. Se considerarmos essa “janela” ampla, de 30 a 40% de MS, o que muda do início ao fim desse período?

A planta de milho é composta por colmo, folhas, pendão, grãos, espiga e palha da espiga. Para simplificar, podemos dividi-la em fração de grãos e fração vegetativa (todos os demais componentes). Conforme a planta amadurece ao longo da janela de corte, ocorre um aumento na massa de grãos e uma redução na proporção dos demais componentes. É importante destacar que essa redução é na proporção, por exemplo, o sabugo não perde massa absoluta, mas como os grãos aumentam de peso, sua participação relativa diminui. Com essa mudança, a fração vegetativa se torna menos representativa, o que leva à redução do teor de fibra (% FDN e FDA), enquanto a deposição de amido nos grãos aumenta progressivamente, partindo da extremidade externa dos grãos para o centro (a chamada linha do leite).

Além dos efeitos na composição química da silagem, o avanço da maturação da planta (~38% MS) pode alterar a digestibilidade das frações e outros parâmetros. Para resumir esses efeitos, veja o quadro abaixo:

Quadro 1. Efeitos da maturação da planta de milho em parâmetros qualitativos da silagem de milho.

Efeitos da maturação da planta de milho em parâmetros qualitativos da silagem de milho.

Fonte: Elaborado por Barreta (2025). Adaptado de Neylon e Kung Jr. (2003), Jensen et al. (2005), Krüger et al. (2020) e Gutiérrez et al. (2024).

Com base nessas informações, a escolha do momento ideal para a colheita da silagem de milho depende de diversos fatores. De modo geral, colher em um estágio mais avançado de maturação aumenta a produção de MS por hectare e a proporção de grãos na silagem. Entretanto, isso também pode dificultar o processamento do material (grãos e fibra) e comprometer a estabilidade da silagem, uma vez que a compactação se torna mais difícil com teores elevados de MS.

Nesse sentido, o aumento do teor de amido e a redução da FDN podem ser vantajosos quando a dieta inclui outras fontes de volumoso ricas em fibra. No entanto, se a silagem de milho for a principal (ou única) fonte de volumoso, um teor menor de amido e uma fração maior de FDN digestível (FDNd) podem ser preferíveis para garantir parâmetros de consumo e saúde ruminal.

Como você já deve ter percebido, o tema é complexo e exige muitas vírgulas, outro fator que pode alterar a composição da silagem é a altura de corte. Ao elevar a altura da plataforma da colhedora (por exemplo, de 15 para 50 cm), o que é deixado na lavoura? Colmo e folhas basais, ou seja, fibra de menor qualidade. Como resultado, a proporção de grãos na silagem aumenta. Mas em quanto? Segundo dados de Ferraretto et al. (2018), a cada 12 cm de aumento na altura de corte, o teor de amido na MS aumenta cerca de 1%. Se seu objetivo é aumentar a concentração de amido na silagem, essa pode ser uma alternativa interessante.

Portanto, determinar o ponto ideal de colheita da silagem de milho não é uma decisão simples e envolve um equilíbrio entre rendimento, composição química e qualidade fermentativa. Avaliar os objetivos nutricionais e as características do sistema de produção é essencial para tomar a melhor decisão.

Daniel Augusto Barreta

Daniel Augusto Barreta

Zootecnista, Núcleo de Pesquisa em Pastagem – UDESC/CAV

Publicação: Portal MilkPoint Ventures

Autor

marcelomaren@hotmail.com

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