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pecuária de leite no Brasil tem registrado importantes mudanças ao longo dos últimos anos, com ganhos de produtividade das vacas, tendência de aumento do volume médio de produção por fazenda e consolidação. Em 10 anos, o aumento da produtividade média das vacas foi de 55%, segundo o IBGE, ilustrando a intensificação tecnológica em curso. No entanto, ainda considerando dados do IBGE, as médias brasileiras de produtividade das vacas permanecem baixas, com apenas 2.214 litros/vaca/ano, colocando o Brasil na 77ª posição no ranking mundial de produtividade por vaca.

Neste contexto, surgem questionamentos importantes relacionados ao volume de leite produzido, no que se refere aos resultados técnicos e econômicos dos diferentes estratos de volume, como: Produtores de maior volume tendem a possuir maior rentabilidade? Como os indicadores e custos de produção se comportam de acordo com o volume produzido? O que tem afetado a rentabilidade média das fazendas?

O objetivo deste conteúdo é explorar estes temas, com base em dados gerenciados pela Labor Rural. A avaliação considerou dados janeiro/2023 a dezembro/2023, deflacionados, de centenas de fazendas, divididas em cinco estratos de produção, gerados em função da similaridade entre as propriedades.

Rentabilidade

O ano de 2023 foi desafiador para o setor lácteo brasileiro, sobretudo no âmbito das margens. A queda no preço do leite, motivada por um elevado volume de importações e pela situação econômica do país, acabou apertando a rentabilidade do setor. O volume de equivalente em leite importado em 2023 foi o maior desde o período pós Plano Real, sendo ainda o maior valor histórico, em dólares. No total, foram importados 2.183 milhões de litros, o que correspondeu a 9% do volume total de leite inspecionado.

Analisando a taxa de remuneração do capital da atividade leiteira em 2023, é possível observar a baixa rentabilidade média dos produtores, sobretudo dos menores. Sem incluir terra na avaliação, a taxa de remuneração do capital variou de 2,7% até 17,6% ao ano (Figura 1). Especialmente para produtores de menor volume, a situação se mostrou ruim, perdendo inclusive para aplicações financeiras de baixo risco em renda fixa. Por outro lado, os produtores com maiores volumes de produção obtiveram resultados bastante atrativos.

Essa baixa rentabilidade média dos produtores menores cria um dilema para eles, uma vez que este resultado demonstra que para um desenvolvimento saudável da atividade, faz-se necessário se tornar maior em produção, obtendo ganho em escala com eficiência, entretanto existe a limitação da sua capacidade de investimento e expansão. Portanto, é um desafio enfrentado por estes produtores, com problemas tecnológicos, econômicos e financeiros dificultando seu crescimento, e que demandam políticas públicas com linhas específicas de financiamento para ganhos de volume e escala, com prazos longos e taxas de juros mais baixas.

Já em uma análise mais ampla, envolvendo o estoque de capital em terra, a situação de rentabilidade média foi mais complicada, já que todos os estratos de produção obtiveram rentabilidade anual inferior a taxa nominal de juros Selic, de 11,75% ao ano (Figura 1). Alguns podem argumentar que a terra não deveria ser considerada na análise, pois ela tende a se valorizar no decorrer do tempo. Por outro lado, ao analisar do ponto de vista do investidor, inclusive que pretende entrar no negócio leite, o capital em terra precisa ser considerado e este é um fator de produção importante. Existem diversos exemplos de produtores de leite deixando a atividade e também de produtores tradicionais crescendo no leite. A pergunta é: tem sido observado novos investidores entrando no leite, como vem acontecendo em grãos? Isso é importante, pois afeta o futuro do leite no Brasil.

Figura 1. Taxa de remuneração do capital (%), em 2023.

Taxa de remuneração do capital

Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite. Letras diferentes indicam diferenças significativas a 10% pelo teste de Tukey.

Indicadores técnicos e econômicos

Pode-se reparar uma intensa diferença nos indicadores técnicos das propriedades ao longo dos estratos de produção (Tabela 1). As fazendas com maiores volumes também possuem rebanhos mais bem estruturados, como pode-se observar pelos resultados dos indicadores “Vacas em lactação/total de vacas (%)” e “Vacas em lactação/total de rebanho (%)”, ou seja, há proporcionalmente mais animais gerando receitas na propriedade.

Quanto maior a produção média diária, também se observa uma melhor eficiência do uso da terra, onde o estrato de maior produção possui produtividade da terra quase seis vezes superior ao estrato de menor produção, além de possuírem rebanho com produtividade média que ultrapassa o dobro da produtividade dos rebanhos das propriedades do menor estrato de produção. Expressivo, não acha?

Em função destes melhores resultados técnicos, as propriedades com maiores volumes são expressivamente mais eficientes no uso do estoque de capital, empatando R$ 1.666 para cada litro de leite produzido, enquanto as fazendas de menores volumes empatam R$ 4.320. Este é um dos principais indicadores da pecuária leiteira e está diretamente relacionado com a rentabilidade do negócio. A consequência de tudo isso que estamos discutindo são maiores margens, seja do ponto de vista anual, seja do ponto de vista unitário.

Tabela 1 – Indicadores técnicos em MG, em 2023.

Indicadores técnicos Até 500 litros/dia 500 a 1.000 litros/dia 1.000 a 2.000 litros/dia 2.000 a 4.000 litros/dia Acima de 4.000 litros/dia
Vacas em lactação/total de vacas (%) 73,7 d 79,4 c 81,0 bc 83,2 ab 83,8 a
Vacas em lactação/total de rebanho (%) 29,9 d 35,6 c 37,4 bc 39,7 ab 41,4 a
Produtividade da terra (litros/hectare/ano) 2.542 d 4.102 c 5.394 b 8.880 a 14.850 a
Produtividade das vacas em lactação (litros/vaca/dia) 13,9 e 17,1 d 19,9 c 23,5 b 29,6 a
Estoque de capital por litro (R$/litro/dia) 4.320 a 3.237 b 2.758 c 1.995 d 1.666 d
Margem líquida anual da atividade (R$/ano) 15.479 c 62.774 c 128.856 c 393.547 b 1.222.328 a
Margem líquida da atividade por litro (R$/litro) 0,12 b 0,24 b 0,26 b 0,40 a 0,45 a

Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite. Letras diferentes indicam diferenças significativas a 10% pelo teste de Tukey.

Pelo contexto observado até aqui, analisando os resultados médios, as fazendas maiores tiveram melhor desempenho econômico. Neste sentido, uma avaliação preliminar poderia concluir que as fazendas menores não ganham dinheiro com leite, que tenderiam a desaparecer, o que não é totalmente verdadeiro. De fato, na produção de commodities, o volume de produção faz muita diferença no desempenho econômico, mas existem outras questões. É importante atentar que, como demostrando pelos resultados, há um grande pacote de indicadores com resultados melhores para as fazendas de maiores volumes e este mesmo comportamento se observa em uma comparação entre as mais rentáveis e menos rentáveis de cada estrato de produção.

Um recorte considerando a eficiência econômica de uma fazenda, que é a razão entre a receita observada e a receita máxima que poderia ser obtida, apresenta outra leitura dos indicadores. Essa análise será resultado de outro estudo, mas algumas observações já podem ser adiantadas. Primeiro, todas as fazendas economicamente eficientes, aqui chamadas de benchmarks, registraram indicadores melhores que a média do grupo. Isso em praticamente todos os indicadores e custo de produção. Segundo, neste grupo de benchmarks, nem todos são grandes produtores, existindo fazendas eficientes, rentáveis e atrativas em todos os estratos de produção. No âmbito da rentabilidade, mesmo considerando o valor da terra, a média dessas fazendas foi superior a 20% no ano, o que ilustra um excelente desempenho para um ano complicado, como foi 2023.

Custo de produção e preço do leite

Analisando o mesmo recorte de volume de produção para avaliar o custo operacional total de produção e preço recebido pelo leite, observa-se comportamentos distintos. Para os custos de produção, esperava-se que um maior volume de produção pudesse gerar redução em custos, mas não foi o resultado encontrado. Os custos médios de produção foram estatisticamente iguais, quando se considera a média das fazendas nestes estratos de produção (Figura 2). Esse resultado evidencia também que em todos os grupos de produção analisados, observa-se produtores mais e menos competitivos em termos de custo. Em uma avaliação de eficiência produtiva, os produtores mais eficientes tiveram custos, em média, mais equilibrados que os produtores menos eficientes, independente do estrato de produção e este será tema de discussão em outro conteúdo.

Figura 2. Custo operacional total do leite (R$/litro) em MG, em 2023.

Custo operacional total

Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite. Letras diferentes indicam diferenças significativas a 10% pelo teste de Tukey.

Já no caso de preço do leite, verifica-se uma elevação com o aumento do volume de produção (Figura 3). Em média, os produtores do estrato superior obtiveram preços 9,4% acima do grupo de menor volume. Isso é algo para reflexão na cadeia produtiva, no qual a bonificação por volume acaba emitindo um sinal de mercado para os produtores, dizendo que uma maior produção virá acompanhada de maior preço. No entanto, o produtor não pode estar apenas ancorado em preço de venda, precisando se atentar de fato aos resultados dos indicadores propriamente ditos, sobretudo os indicadores técnicos, que vimos anteriormente que todos são melhores as fazendas maiores.

Figura 3. Preço do leite (R$/litro) em MG, em 2023.

Preço do leite

Fonte: Labor Rural/Embrapa Gado de Leite. Letras diferentes indicam diferenças significativas a 10% pelo teste de Tukey.

Embora o preço do leite contribua na comparação média de rentabilidade entre as fazendas, não é o único fator de impacto, visto que a diferença de rentabilidade foi muito superior a diferença no preço (9,4% de diferença no preço e rentabilidade 10 vezes superior). Se o preço fosse o único fator que justifica a maior rentabilidade, essa proporção seria mais próxima ou até mesmo idêntica, não é mesmo?

Portanto, as mensagens principais observadas neste estudo são as seguintes: não é apenas o volume de produção que leva ao sucesso na atividade leiteira; não é apenas o diferencial de preços que faz a propriedade ter boa rentabilidade. Estes fatores certamente ajudam. O maior volume de produção contribui para diluir custos fixos e traz outros benefícios de mercado, mas os melhores resultados econômicos estão associados a bons resultados técnicos para dentro da porteira.

GLAUCO RODRIGUES CARVALHO
CHRISTIANO NASCIF
WILLIAM HELENO MARIANO
ANDREZA DE FÁTIMA MARTINS

Publicação: Portal MilkPoint Ventures
https://www.milkpoint.com.br/colunas/glauco-rodrigues-carvalho/diferencas-e-
semelhancas-dos-estratos-de-volume-na-producao-de-leite-237431/

Autor

marcelomaren@hotmail.com

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