O essencialismo na escolha da genética
Recentemente comecei a ler o livro Essencialismo, de Greg McKeown, onde o autor oferece uma verdadeira aula de foco e clareza. Em um mundo repleto de informações e notificações, McKeown defende a importância de identificarmos o que é fundamental para nossos objetivos e de alinharmos nossas ações com nosso propósito de vida. Essa abordagem de essencialismo, que propõe uma “mineração” do que realmente importa, ajuda a conectar oportunidades ao nosso propósito.
Estudando essas ideias e refletindo sobre o impacto do foco e da simplificação, percebo uma correlação com os desafios na escolha da genética na pecuária leiteira. Hoje, ao invés de simplesmente aumentar o volume de produção, o produtor tem acesso a uma infinidade de dados — desde a genética até os detalhes nutricionais e os mercados a serem atendidos. No Brasil, por exemplo, há 400 novos materiais genéticos disponibilizados anualmente apenas para a raça Holandesa (dados da ABCBRH, 2023). Com touros permanecendo por até quatro anos em catálogo, o produtor lida com aproximadamente 1.600 opções, além de 64.000 informações de índice genético e características individuais por touro.
Diante desse excesso de informação, a decisão sobre qual genética usar torna-se complexa e muitas vezes desvia o produtor de seu foco original. Esse desafio ilustra a necessidade de um alinhamento estratégico na genética, onde o produtor adote um conjunto de critérios essenciais que priorize os objetivos específicos de sua fazenda. Kaplan e Norton, criadores do Balanced Scorecard, identificam a importância desse alinhamento, destacando que empresas de sucesso, além de possuir talentos e recursos, utilizam estratégias claras e alinhadas para agregar valor ao negócio.
A importância do alinhamento estratégico
A complexidade do setor leiteiro, especialmente na escolha genética, se assemelha aos cenários corporativos que Kaplan e Norton abordam. Eles destacam que “não adianta ter remadores fortes e altamente treinados se cada um seguir uma direção contrária.” A analogia se aplica ao produtor de leite ao enfatizar que o uso de dados e o potencial genético de nada servem se não houver coordenação e foco nos objetivos finais. Esse alinhamento envolve não apenas selecionar as melhores opções genéticas, mas garantir que essa seleção siga uma “estratégia genética” coerente, com indicadores específicos para guiar as escolhas e monitorar resultados ao longo do tempo.
Empresas como a Chrysler e Procter & Gamble exemplificam o uso do BSC para reestruturar operações e gerar alinhamento, o que levou a ganhos substanciais. O mesmo pode ocorrer no setor leiteiro, caso produtores implementem o conceito de um “mapa estratégico” genético. Assim como o BSC auxilia as empresas a alinharem seus processos internos e unidades de negócio para um objetivo comum, uma abordagem estruturada na genética leiteira poderia priorizar características de touros e matrizes em alinhamento com a visão de longo prazo do produtor.
Criando sinergias na genética e a visão de Kaplan e Norton
Outro ponto importante destacado por Kaplan e Norton é a criação de sinergias. No setor leiteiro, isso poderia significar a criação de parcerias estratégicas entre fazendas e centros de pesquisa genética, promovendo o compartilhamento de informações e a utilização de padrões genéticos alinhados com a demanda de mercado e com os valores estratégicos da fazenda. Dessa forma, o foco na genética passa a transcender o interesse individual da fazenda, promovendo um alinhamento que gera benefícios coletivos para o setor.
Ao focar em características prioritárias — sejam elas a longevidade dos animais, a capacidade de produção de sólidos ou a resistência a doenças —, o produtor pode criar um “portfólio genético” que reflete as metas de longo prazo, assim como as empresas de sucesso desenvolvem estratégias para gerar valor contínuo. Kaplan e Norton também enfatizam que a centralização das informações e o uso de Mapas Estratégicos permitem identificar e distribuir responsabilidades, garantindo que cada unidade (ou cada decisão genética) contribua diretamente para o resultado final.
Alinhamento contínuo e a evolução da estratégia genética
Um dos aspectos centrais do BSC é a necessidade de alinhamento contínuo, com revisões e ajustes conforme o mercado e as necessidades evoluem. No setor leiteiro, isso implica monitorar e adaptar a estratégia genética em resposta a mudanças, seja na demanda do mercado ou na adaptação às condições ambientais. A escolha de touros e matrizes, por exemplo, deve refletir o alinhamento com o cenário futuro, para que as decisões genéticas de hoje estejam adequadas às exigências de amanhã.
O uso do Balanced Scorecard adaptado à genética pode transformar a abordagem tradicional, orientando o produtor na criação de indicadores estratégicos claros, com metas que reflitam a proposta de valor da fazenda. Esta estrutura não apenas facilita a tomada de decisões em um contexto de complexidade, mas também permite que o produtor tenha uma visão mais ampla de como cada escolha genética contribui para a realização dos objetivos de longo prazo.
No contexto atual, onde a escolha genética se tornou altamente complexa e segmentada, o essencialismo e o alinhamento estratégico são ferramentas poderosas. Greg McKeown nos ensina a priorizar o que é fundamental, e Kaplan e Norton nos lembram da importância de alinhar cada decisão aos objetivos centrais. Ao unir esses conceitos, o produtor poderá usar dados e recursos de maneira mais eficiente, promovendo um rebanho mais alinhado com seu propósito e suas metas de longo prazo.
Material escrito por:
TIMOTHEO SOUZA SILVEIRA
Publicação: Portal MilkPoint Ventures